domingo, 28 de novembro de 2010

Sem idade

      A senhora sentava só e triste, pequena e encolhida. O vestido preto na pele enrugada, a casa grande sem som de alegria, os fios brancos dos cabelos lisos preso em coque, a empregada lhe oferece chá, ela pede uísque, caminha até a vitrola com o copo na mão e coloca para tocar a musica de um romance antigo. Manda chamar o motorista e ele entra na sala onde ela estava:
       - Pois não? – ele diz com educação e ela sem olhar ele nos olhos responde:
      - Vamos sair, ligue o carro que já estou indo. - a velha coloca o óculos de sol que ganhou da filha no Natal passado e se lembra que a ultima vez que conversou com essa ingrata foi no Natal passado mesmo e ora, já é novembro do outro ano.
       Ela entra no carro, no banco de trás e diz educadamente:
       - Me leve para um lugar que talvez eu goste.-
       - Mas, como eu vou saber de um lugar que talvez a senhora goste?-
       - Não sei, você trabalha para mim a muitos anos.-
      -Sim, mas nossos passeios são sempre a casa de suas amigas, filhos ou netos, vamos ao mercado, a costureira e ao médico, a senhora quer visitar alguém? –
       - Não, me leve para uma praça, qualquer uma que tenha árvores, namorados, crianças e pássaros.-
       O homem confuso levou a patroa a mais bela praça da cidade, com um lago cheio de patos no meio, muitas árvores e flores, pássaros, crianças e casais, como ela havia pedido. Ela disse que ele podia ficar no carro e saiu, andou, sentou na grama, respirou, olhou o céu, olhou o lago, olhou as crianças e olhou os casais e chorou, chorou tanto que o rosto enrugou-se ainda mais, mas não tirou os óculos de sol, pois para seu marido o choro era fraqueza e ela não queria que do infinito ele a visse fraca.
         Passou trinta minutos, quarenta e cinco, uma hora e ela voltou ao carro.
        - Agora me leve ao cemitério onde ele está.-
        - A senhora tem certeza?-
        - Alguma vez na minha vida eu deixei de ter certeza?-
        -Não senhora.-
        - Então vamos.-
        Ela desceu e mandou que ele ficasse no carro, foi até o tumulo do seu marido e passou os dedos longos pelo nome dele na lápide, murmurou uma poesia, cantou a musica dos dois, disse “eu te amo” por tantas vezes e o agradeceu, sentou no chão, dormiu no chão, ao lado dele, no cemitério, a velha dormiu.
         Do carro o motorista não sabia o que fazer, ligou para a filha mais velha e o celular estava desligado, devia estar na Yoga. Ligou para o do meio, ele estava em uma reunião, na casa do mais novo informaram que ele estava dormindo e não poderia ser acordado. Ligou para os netos dela, todos ocupados, os bisnetos, todos ocupados. Ligou para a empregada, que saiu correndo da casa da mulher para ajudar o motorista, os dois a levaram para casa, a força, enquanto ela chorava e gritava, e dormia no ombro da empregada, mas levaram.
      A noite ela teve febre, vômitos, alucinações, suou, tossiu. Eles tentavam ligar para filhos, netos, bisnetos, irmãos, amigas, mas ora, sumiram todos. Levaram a velha ao hospital, o medico fez de tudo, mas ela morreu. Foi encontrar-se com aquele que amou e que sempre amaria, e no testamento que encontraram depois, deixou 40% dos bens para a empregada, 40% para o motorista e 20% para caridade. Ela parecia boba e boazinha, mas sabia muito bem quem ficaria com ela quando mais precisasse.


                                                           Beijos: Marcella Leal

P.S- Estava com esse texto na cabeça a muito tempo, nasceu do nada, espero que tenham gostado.
P.P.S- Semana de provas finais, nem o computador vou ligar, tento comentar hoje nos blogs, se não der, me desculpem.

13 comentários:

Anônimo disse...

às vezes as pessoas sabem quem ´q eu realmente está a seu lado.

meu beijo!

M. disse...

Simplesmente lindo...e necessário!
-M.

Anônimo disse...

Muitas vezes em nossa vida é assim mesmo que as coisas acontecem, em momentos dificeis que você percebe quem realmente vai estar ali para te ajudar.
Beijos

Henrique Miné disse...

resta saber poque a abandonaaram, né...


mas ficou bonito o texto, muito sentimeento aí!

beeeeeijos.

D.Ramírez disse...

Décio Ramírez Pirou!!!! Sua
caricatura, a do seu amigo, do seu vizinho, de quem você quiser
presentear, desenhada por ele, por apenas R$ 20, 00 cada ????
Pergunte-me como, enviando um e mail para:
euqueroumacaricatura@gmail.com e peça já a sua antes que ele volte a sua
... sã consciência!!!

Gabriela P. disse...

Fiquei com raiva dos netos dela!

Vidah disse...

Eu já estava com vontade de chorar antes, imagine agora...

Simplesmente lindo!

~*Rebeca*~ disse...

Adorei!

Jéssica Trabuco disse...

Triste...
São em alguns momentos que vemos que o sangue, as vezes, não é o mais importante.
Tem pessoas que não são do nosso sangue mas nos amam mais do que alguns.

Marcela disse...

é triste, saber que as pessoas podem escolher simplesmente não nos amar.
E não há nada que possamos fazer pra evitar, nada.

Ivana Araujo disse...

Você me deixa sem palavras.
Como escreve bem !
Um beijo.

Sabrina disse...

Tem desafio pra você no meu blog flor, viu?
beijão

Tauane Marques disse...

Adorei o texto, muito lindo!