Para ser bem franca, eu e ela não simpatizamos logo de cara, mas creio que a falta seja minha que não admiro falsos elogios e crio uma barreira protetora contra quem olha e diz:
- Como você é linda.- mesmo que sejam nove horas da manhã e eu esteja usando um pijama de ursinhos e o cabelo preso em um coque mal feito. Quando ela o disse, apenas sorri em sua direção e não agradeci o elogio, pelo contrário, me retirei da sala de estar e fui até a cozinha resmungando algo que não me lembro ao certo, mas deveria ser “Pena que não posso dizer o mesmo.”
E não que aquela senhora fosse feia, pelo contrário, a natureza tinha sido generosa com ela. Descendente de alemães herdou os traços leves e bonitos, tinha grandes olhos azuis e uma pele que de tão clara ficava avermelhada, um cabelo loiríssimo, porém cacheado, o que deixava evidente a nacionalidade do pai, um legitimo brasileiro. O que não a tornava nada mais bela eram as cicatrizes no rosto, as pernas roxeadas que vi por baixo da saia jeans que batia nos joelhos, as olheiras, a altura excessiva e o fato de que parecia castigada pelo tempo e o gato branco que carregava nas mãos como se fosse um filho.
Foi da cozinha que ouvi o dialogo entre ela e o meu pai. A senhora disse que viu o cartaz no pequeno condomínio de casas para aluguel que ele havia construído e que se interessava por uma, caso ele permitisse que ela continuasse a criar os seus gatos e que negociassem um preço mais ameno do aluguel.
- A senhora pode continuar com os gatos, mas consta no contrato que a casa deve ser entregue assim como eu a entreguei para a senhora, ou seja, terá que reparar qualquer dano que eles façam. E quanto ao preço, não negocio.-
- Mas, o senhor há de concordar que está caro.-
- Não para esse bairro e não para essa casa.-
- Bem, o bairro é bom e a casa eu ainda não vi por dentro.-
- Pois bem, vamos lá.-
Ambos levantaram do sofá e foram rumo a saída, tendo que passar em frente a cozinha para sair.
- Minha filha, vou levar a dona Bernadhete para conhecer a casa e já volto.- meu pai disse e balancei a cabeça concordando, eu tinha acordado a pouco tempo e ainda não raciocinava com clareza. A mulher fixou os olhos na minha xícara de café e disse:
- Não é bom para moças de família beberem café, dizem que excita.- ela falou arregalando mais os olhos e meu pai diminui o tamanho dos dele, como se implorasse para que eu não desse uma má resposta, mordendo a língua, levantei a xícara e virei o resto do liquido na boca logo antes deles saírem.
Da Bernadhete eu soube pouco nos dias que se passaram, ela havia sim alugado a casa e eventualmente o meu pai contava um dos problemas que os outros moradores do condomínio tiveram com ela ou uma história sobre algo que ela havia feito e acreditem, essas sim tornariam esse texto imenso. No mais, eu soube que ela tinha cinqüenta anos e amou uma vez na vida, aos vinte e dois e para nunca mais, tinha seis gatos e os tratava como os filhos que não teve, os pais estavam enterrados a muito tempo e da família do pai, pouco sabia, a da mãe ainda morava na Alemanha. Ela tinha gnomos de jardim e eventualmente era vista conversando com eles, entregava doces para os filhos dos vizinhos, mas se irritava caso eles se aproximassem de sua casa, casa esta que exalava o odor de peixe, única carne que consumia. Dizem que não trabalhava e era um mistério daonde ela tirava dinheiro, se vestia sempre com roupas floridas e bastante jeans, em um estilo meio cigana e definitivamente, eu não ter agradecido ao seu elogio naquela manhã fez com que ela acreditasse que eu fosse uma peste, Bernadhete nunca gostou de mim, chegando a esticar a perna por onde eu ia passar na feirinha semanal do bairro.
Era uma manhã quente de janeiro, quando desci com o meu pai no condomínio, para que ele atendesse ao apelo de um dos moradores da casa vizinha a dela de pedir para que Bernadhete colocasse o lixo para o caminhão pegar e que desse uma faxina na casa, pois o cheiro de peixe estava forte, e olha, realmente estava.
- Dona Bernadhete.- meu pai chamava e esmurrava a porta sem sucesso.
- Talvez seja o caso de chamar a polícia.- disse uma mulher de robe.
- O senhor tem a chave reserva... entra na casa.- outro homem falou e esquecendo-se da ética, meu pai o fez.
Encontramos Bernadhete caída no chão e ensangüentada, ao lado dela repousava uma faca e os gatos, alheios ao que estava acontecendo corriam e miavam pela casa.
- Marcella Leal
P.S- O momento não é bom para os outros textos que eu tinha, fiquem com esse por agora.


14 comentários:
Que medo ! ;OOOOOOOOOOOOOOOOO
AUEIOAUEOAIUEOIAUEAOIUEIA
tadiinha da tiia' tinha que matar ela ? trágico...
eenfim' amei amei o texto \õ/
ps : gatinhos são insensíveis (y'
kkkk
beeijo florzinha ;*
Uoooooooooooow
Coitada da mulher dos gatos O_O'
E gatinhos são insensiveis²
:*
Fiquei com dó da estranha Bernadhete, haha
Se ela tivesse cachorros, a história seria diferente, e ela seria mais agradável =)
Triste ela morrer no final. Vai ver ela não fosse tão estranha assim.
Meu beijo!
É incrivel como muitos gatos + mulher velha é sinônimo de infelicidade.
Gostei muito do texto, um dos melhores que já li aqui, até porque não sigo há muito tempo o blog, mas, parabéns, escreve muito bem. Ganhou um leitor de plantão.
Mais textos pfv.
Nossa! Tadinha dela... O_O
Chama o CSI pra descobrir o que houve... KK.
Beijão ;*
HOHOHO, genial!
E eu achando que no final elas fossem se falar ou algo assim... Certo, isso foi surpreendente.
Maravilhoso, como sempre ^^
Tenso hein?
Surpreendente como disso a amiga aqui de cima. Gostei
Fiquei tensa no final. Texto muito bom, eu esperava um final do tipo e se ajeitaram e viveram felizes como bons vizinhos, mas tá muito bom. :)
beeijos.
www.meujeitodeseer.blogspot.com
Nossa O.O
Que tenso '-'
Eu ri na hora que a Bernadhete disse que café excita HUDHAUSDUHDUD.
Muito bom Marcella, adorei o modo como escreveu este, cheio de detalhes e com cara de escritora brasileira, Muito bom mesmo !
Muito bom... confesso que o fim me deixou triste pela tal senhora!
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