domingo, 24 de abril de 2011

Carolina Ninguém


    E certo dia Carolina cansou. Cansou das roupas velhas e certas de mais, que sempre combinavam e cheiravam a mofo, cansou do cabelo liso, reto e mal lavado, das amizades que tendiam a desaparecer entre os problemas e dos amores que nunca duravam. Cansou de ser Carolina filha da Maria e do Jorge, que era patroa de Adelaide e comia pizza com talheres enferrujados.
     Cansou das músicas desatualizadas do computador e dos livros usados, cansou dos quadros na parede e das fotos que nunca pareciam ter sido tiradas de um ângulo certo. Cansou da decoração do quarto, da temperatura da água do chuveiro e do calor dos beijos que nunca na verdade lhe aqueceram.
     Cansou de ser sempre Carolina, sempre Carolina a correta, Carolina das notas boas, Carolina do rosto limpo, Carolina do passado que não era negro, Carolina da vida vivida em vão. O máximo que já havia feito era uma boa pintura na aula de artes, sua maior responsabilidade foi de comprar pão na padaria e a única pessoa que dependia dela para viver era a poodle Madeline, e olha que a cadela se viraria com uma tigela de ração e outra de água.
     Então um dia Carolina sumiu. Pegou sua mochila comprada com o dinheiro que não lutou para ganhar, jogou dentro o que não podia viver sem e sumiu. Se nunca notaram sua presença, muito menos sua ausência foi sentida.

                           Beijos: Marcella Leal

- As desculpas a todas as Carolinas.

13 comentários:

Amanda disse...

adorei o texto!

rafaela ivo, disse...

E mal sabemos nós, que Carolinas não só são Joanas, como Ritas, como também Guilhermes ou Pedros. O que não queremos é ser uma Carolina, e levar sempre a mesma vida mal vivida. Incrível esse teu texto, adorei!

Anônimo disse...

cada um de nos temos um pouco de Carolina dentro de nos não é? quem nunca arrumou a mochila e disse que ia sair de casa um dia? mas o problema é que carolina n sabia que os problemas e as coisas ruins sempre nos acompanham p onde quer que va. Não adianta fugi.
adoreii o texto, tava com saudade do seu blog, ando meia sem tempo tanto para postar como para as visitas.
bjus

Anônimo disse...

Carolina é minha versão feminina.
Cheia de bipolaridade, mesmo sem saber o que realmente seja isso.
Carolina é real. É um autêntico ser humano.
Já senti vontade de sumir, mas não tenho dinheiro para isso.
E se é que posso me alegrar mais que Carolina iriam sim, sentir minha falta.
Ia demorar, eu sei, mas sentiriam.
E se tenho algo de bem parecido com ela é que cansei de ser o Fernando das notas boas. Eu odiava o status de nerd e mais inteligente. Isso irrita.

Meu beijo!

Cecília Ferreira disse...

Concordo com o que já disseram, todo temos um pouco de Carolina.
Talvez ela viajou para um lugar bem longe, mudou de nome e fez tudo errado (como na música Natasha do Capital inicial). Todos nós já pensamos nem fazer isso, ou simplesmente se casou de ser sempre a mesma coisa.
Ótimo texto (:
Beijo

Larissa Lins disse...

Todas nós somos às vezes meio Carolinas, não somos? Me lembra uma música chamada Boston (Augustana) que sempre me dá vontade de fugir para longe. Às vezes as coisas todas simplesmente nos cansam sem explicação. E como Carolinas, pensamos (quem nunca pensou?) em partir. É preciso coragem pra isso. Mas para permanecer também.

Queria, depois de falar do seu texto (do qual gostei bastante) te agradecer pelo seu comentário mais recente em meu blog. Foi um dos mais sinceros da postagem, imagino. E foi lindo de receber. Então, meu obrigada mais sorridente. Um beijo!

Anônimo disse...

Quem nunca aloprou e quis sair de casa? Quem nunca cansou da própria vida? Quem nunca quis sumir? Quem nunca...? Todos nós, por muitas vezes, queremos deixar aquela roupa que já tem o formato do nosso corpo. Queremos deixar aquele perfume que já não faz mais efeito sobre nós. Mas cadê a coragem para mudar? Cadê a coragem para inovar? Carolina corajosa, corajosa Carolina.

Lillie disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Minne disse...

Vive uma Carolina em mim, uma Carolina insegura, esquecida e monótona, mas também decidida. Às vezes ela toma partido de mim e noutras eu tento mantê-la calma. Somos tantos outros e precisamos saber lidar com isso nas mais diversas situações. E Marcella, eu preciso dizer o quanto acho seus textos incríveis ?

Gih L. Moura disse...

Há uma Carolina escondida em cada coração que bate por aê. Eu já tive inúmeras vezes vontade de sumir e fugir de casa, até tentei, mas voltei no mesmo dia (foi mais pra chamar atenção mesmo, kkk), eu tbm era tachada de a garota das notas boas, saco, cansei disso tudo. As vezes dá vontade de jogar tudo pro alto mesmo, é preciso força de vontade pra continuar em frente.
Precisa falar que amei o texto? Lindo demais girl :D

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

aqui o poema em linha reta de fernando pessoa rescrito elegantemente por vc

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

aqui o poema em linha reta de fernando pessoa rescrito elegantemente por vc

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...
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