sexta-feira, 29 de julho de 2011

Cedo


       Uma das lembranças mais antigas que eu tenho é do enterro da Dona Zeni. Ela era avó de dois primos meus e por morarmos no mesmo bairro, eu ia muito com eles até a casa dela, mas um dia a Dona Zeni morreu, não me lembro se de problema de saúde ou de simples velhice, o fato é que foi a primeira pessoa próxima e querida que eu perdi na vida, não doeu tanto, porque eu não tinha mais que cinco anos de idade, mas com certeza foi uma experiência que me marcou.
        Lembro com exatidão das pessoas na casa dela chorando e se lamentando, das filhas entrando em desespero e de sentar em um canto com meus primos do meu lado, um pouco sem rumo, sem saber o que estava acontecendo direito, o que era essa tal de “morte” que vinha e deixava gente chorando, se nós íamos ver ela de novo e onde iam colocar ela, lembro também da nossa avó dizer confortando que ela tinha virado um anjo e na minha cabeça as idéias de ser anjo antes de nascer e depois de morrer também entravam em conflito.
         Um pouco mais tarde, alguém se aproximou da minha mãe e disse:
         - O corpo da Dona Zeni chegou.- ela nos levou embora nessa hora e mais tarde minha outra avó foi me buscar.
          - Vó. – chamei.
          - Fala.- ela respondeu sem tirar os olhos da estrada.
          - Cadê a cabeça?
          - Cabeça? Que cabeça?
          - A cabeça da dona Zeni...
          - A CABEÇA DA DONA ZENI?!- ela repetiu assustada.
          - É vó, o que fizeram com a cabeça dela depois que ela morreu?
          - Nada meu bem, a cabeça dela foi enterrada com ela.
          - Não vovó, enterram só o corpo.
          Lembro da minha avó dando uma crise de riso ao volante e eu sem entender o que tinha dito de tão engraçado, foi aí que me explicaram que o corpo também envolvia a cabeça da pessoa, que era ela inteira, igual é aqui na Terra e que “A gente entrega o corpo por inteiro pra quem nos deu ele.”. Foi assim que eu perdi minha primeira pessoa, foi assim que aprendi, mesmo com um pouco de ingenuidade, o que era não ter alguém importante ao nosso lado e o quão pequeno nós somos diante do mundo todo.

               - Marcella Leal          

3 comentários:

Anônimo disse...

Perder pessoas é uma coisa que acontece muito na vida. Nós estamos sempre em tantos lugares, com tantas pessoas que em alguns momentos nós nos deparamos com essas perda, até pra vida mesmo, pros desencontros. Dizem que é a vida. Que a vida é assim. Prefiro pensar que tudo isso é muito chato e que perdas não deveriam existir.

Beijo, goiabinha!

Lívia disse...

Na verdade eu tive uma experiencia assim.
Mas por sermos crianças não entendemos bem, mas depois mesmo assim não compreendemos.
Nunca nos conformamos por a morte nos levar pessoas queridas, muito menos estamos preparados independente de quantos anos nos temos.
Para quando ela ocorre com uma pessoa querida.É uma das coisas que apreendemos na vida.

Muito bom esse seu relato me lembrou bastante de um livro que li .
Beijoos

Carlos Eduardo disse...

eu nasci com um defeito enorme!Não sei se as outras pessoas são assim, mas não sei me afastar das pessoas que amo.Sofro demais.É como se eu morresse cada dia um pouco mais.