Talvez devesse simplesmente
fazer as malas e dizer “Adeus”, ligar para o namorado, pegar a estrada e
amanhecer o dia em Fim do Mundo, sem dar satisfação, endereço ou justificar
essa fuga real que tantas vezes já ocorreu no plano do imaginário. Mas, ela não
tinha coragem, não teve em dezessete anos de ir ao shopping sem avisar, e não
teria ao completar dezoito, de fugir sem indicar seu rumo e sem nem sequer
pensar em um. Há
coisas do interior da gente que não mudam entre as 23:59 de uma véspera e da
00:00 de uma data, há coisas que permanecem sendo minimamente alteradas no
decorrer dos dias, das semanas, dos meses e quem sabe até dos anos. Gradação: A
vida é exatamente essa figura de linguagem ocorrendo no passar de cada instante.
Pode ser que ela ainda pareça a
menina mole e comportada que sempre foi nas suas quase duas décadas, mas existem
coisas que só quem convive com o coração de alguém consegue dizer. O problema é
que a maioria das pessoas, convivem com o rosto das outras e por conviverem só
com a casca fria e moldável, não conseguem entender por um olhar ou um sorriso,
o que o coração quer gritar, e são essas as que não tem a capacidade emocional
de compreender que assim como o universo está em constante mudança, estão também
os seres humanos.
Apesar de o sorriso não ter mudado e
das tias ainda exclamarem que ela continua com o mesmo rostinho, a mente foi a
coisa mais determinante na mudança da menina: Se antes pensava que poderia
traçar linhas retas para chegar de A até B, hoje talvez prefira percorrer o
alfabeto inteiro para na última volta, retornar à B. Se antes, dois números só
somavam um único resultado, hoje talvez compreenda as matemáticas da vida, de
outra forma. Pode ser que seja uma capa inalterada, uma capa que apenas
expandiu e criou corpo devido à idade, mas dentro da capa, não mais pensa a
menina de oito anos, pensa agora a de dezoito.
A de dezoito, sente vontade imensa de
amanhecer o dia no Fim do Mundo, mas é inteligente o suficiente para entender
que é melhor avisar que é lá que estará do que simplesmente fugir, porque seu corpo se distancia de algo, mas sua
cabeça não. Talvez o que tenha mudado entre os dezessete e os dezoito , não
seja o fato de ter atingido a maioridade, obrigatoriedade de voto,
responsabilidade pelos próprios atos, permissão para dirigir e beber, talvez a única
coisa que realmente alterou, seja o modo de pensar, o modo que escolheu agir e
ser de agora em diante.
Agora , querendo ou não, as pessoas vão conviver somente com o
coração.
- Marcella Leal
(Faço 18 no dia 22/02,
esse texto não é sobre mim e você não deve acreditar em tudo aquilo que lê.)
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2 comentários:
Fugimos,fazemos loucuras,nos encontramos,nos perdemos, criamos sonhos, realizamos e sonhamos outros. Mas a casa muita vezes é a mesma, as pessoas geralmente as mesma, o cheiro é o mesmo, o que muda é a gente. Nosso interior que nunca para, sempre há espaço pra mais e mais coisas que nos encha e transborda e que seja assim até o último dia.
E você não deveria pensar demais. Fuja. E muito menos dar ouvidos para estranhos!
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