segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

(in)altera


       Talvez devesse simplesmente fazer as malas e dizer “Adeus”, ligar para o namorado, pegar a estrada e amanhecer o dia em Fim do Mundo, sem dar satisfação, endereço ou justificar essa fuga real que tantas vezes já ocorreu no plano do imaginário. Mas, ela não tinha coragem, não teve em dezessete anos de ir ao shopping sem avisar, e não teria ao completar dezoito, de fugir sem indicar seu rumo e sem nem sequer pensar em um. Há coisas do interior da gente que não mudam entre as 23:59 de uma véspera e da 00:00 de uma data, há coisas que permanecem sendo minimamente alteradas no decorrer dos dias, das semanas, dos meses e quem sabe até dos anos. Gradação: A vida é exatamente essa figura de linguagem ocorrendo no passar de cada instante.
             Pode ser que ela ainda pareça a menina mole e comportada que sempre foi nas suas quase duas décadas, mas existem coisas que só quem convive com o coração de alguém consegue dizer. O problema é que a maioria das pessoas, convivem com o rosto das outras e por conviverem só com a casca fria e moldável, não conseguem entender por um olhar ou um sorriso, o que o coração quer gritar, e são essas as que não tem a capacidade emocional de compreender que assim como o universo está em constante mudança, estão também os seres humanos.
          Apesar de o sorriso não ter mudado e das tias ainda exclamarem que ela continua com o mesmo rostinho, a mente foi a coisa mais determinante na mudança da menina: Se antes pensava que poderia traçar linhas retas para chegar de A até B, hoje talvez prefira percorrer o alfabeto inteiro para na última volta, retornar à B. Se antes, dois números só somavam um único resultado, hoje talvez compreenda as matemáticas da vida, de outra forma. Pode ser que seja uma capa inalterada, uma capa que apenas expandiu e criou corpo devido à idade, mas dentro da capa, não mais pensa a menina de oito anos, pensa agora a de dezoito.
      A de dezoito, sente vontade imensa de amanhecer o dia no Fim do Mundo, mas é inteligente o suficiente para entender que é melhor avisar que é lá que estará do que simplesmente fugir, porque  seu corpo se distancia de algo, mas sua cabeça não. Talvez o que tenha mudado entre os dezessete e os dezoito , não seja o fato de ter atingido a maioridade, obrigatoriedade de voto, responsabilidade pelos próprios atos, permissão para dirigir e beber, talvez a única coisa que realmente alterou, seja o modo de pensar, o modo que escolheu agir e ser de agora em diante. Agora, querendo ou não, as pessoas vão conviver somente com o coração.

                                                 - Marcella Leal

(Faço 18 no dia 22/02, esse texto não é sobre mim e você não deve acreditar em tudo aquilo que lê.)

2 comentários:

Cecília Ferreira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cecília Ferreira disse...

Fugimos,fazemos loucuras,nos encontramos,nos perdemos, criamos sonhos, realizamos e sonhamos outros. Mas a casa muita vezes é a mesma, as pessoas geralmente as mesma, o cheiro é o mesmo, o que muda é a gente. Nosso interior que nunca para, sempre há espaço pra mais e mais coisas que nos encha e transborda e que seja assim até o último dia.
E você não deveria pensar demais. Fuja. E muito menos dar ouvidos para estranhos!