Era uma vez Clarabella e ela, ao
contrário do nome, não era bela e não tinha clareza sobre nada em sua vida. Era
má irmã, má amiga, má namorada e um desastre como filha, isto era porque,
constantemente cometia erros que os outros não podiam ignorar e sempre que eles
aconteciam, ela se chicoteava e miúda, escondia o rosto na sua pequenez e se
mostrava ainda menos bela do que antes parecia.
Por vezes, ela sentiu como se fosse,
uma peça que veio sobrando na caixa do quebra-cabeça e que se de certa forma,
deixasse de ser Clarabella, não notariam a diferença ou talvez percebessem que
as coisas haviam melhorado, mas jamais atribuiriam isto à inexistência dela,
porque nunca fez nada que despertasse tanto a atenção para ela. Talvez se ela
tivesse sido bailarina como a avó quisera, quando ela sumisse, alguém
perceberia que ninguém mais ali dançava.
Mas Clarabella não dançava, não
cantava, pintava ou escrevia. Era ruim em tudo, até em ser ela mesma, tinha
dificuldades. O pai dizia que era culpa da sua tamanha preguiça e desinteresse
pelas artes da vida. Arte mesmo era viver. Viver sendo Clarabella.
No mundo dela, nunca se ouviam
interrogações, sempre interjeições.
-Vamos Clarabella, traga logo isso. -
-Clarabella, senta direito, olha a coluna, Clarabella!”- -Clarabella, não come
isso, conta as calorias, Clarabella!- -Não me desagrade!- “Não faça manhã, não
dê escândalo, olha o drama, Clarabella!-
Ninguém nunca perguntava onde ela
queria almoçar e qualquer dia desses, ela queria almoçar batata recheada, mas
ninguém queria saber disso.
Sua mãe a apelidou de “Monstra” e na
frente de todo mundo, a chamava assim, porque a pobre coitada da menina,era
diferente das outras meninas que queriam ser diferenciadas agindo da mesma
maneira. Clarabella Monstra, por não seguir padrão, tornou-se aberração e por
não sentar-se de pernas cruzadas sob o vestido rosa de seda, tornou-se exceção.
Mas ser exceção só era bom se você fosse bela e ela estava mais para fera.
Certo dia, ao acordar, percebeu que
havia se tornado um terrível ser coberto de pelos esverdeados, com unhas
enormes, sujas e duras e ela cheirava à esgoto. Clarabella respirou aliviada,
pois não mais precisava fingir ser igual ou tentar ser bela.
- Marcella Leal


2 comentários:
Tenho me sentido tão Clarabella ultimamente...
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