Carolina olhou pro céu azul
claro e sentiu uma vontade imensa de voar. Pensou. Pensou. Lembrou que não
sabia voar. Pensou em como seria voar. Voar seria ser tomada por uma força sobre-humana
que a levantaria e levaria ela para o lugar mais bonito do mundo. Onde era o
lugar mais bonito do mundo? Pra onde Carolina queria voar? Fechou os olhos.
Pensou. O lugar mais bonito do mundo tem chão gramado, solo quente e chuvisca
de fininho.... Não! Não... O lugar mais bonito do mundo tem um tapete persa
igual ao da casa da vizinha. Não! O lugar mais bonito do mundo tem cheiro de
doce! Isso! Tem cheiro de doce, chuvisca, tem grama quente coberta com tapete
persa. Pronto. Carolina queria voar.
Na ânsia
de pegar vôo, Carolina levantou os braços, inclinou a cabeça e pensou “Vou
embora, vou voar!”, mas de repente, percebeu que as raízes das árvores que
estavam logo ao seu lado prendiam os seus pés e não deixavam voar, “Mas eu
quero, eu quero muito” e bateu os braços, e tirou as raízes e gritou,
esperneou, mas mesmo sem nada prendendo os pés, Carolina se via puxada para
baixo, impossibilitada de voar. Carolina olhou pro céu, o céu chorou para
Carolina, o céu chorou em Carolina e Carolina não voou. Carolina passou a
semana triste porque não tinha conseguido voar, aí então perguntaram:
- Carolina, por que não voou?
- Não deu.
- Não deu, por quê?
- Fiquei presa.
- Presa?
- Foi. Fiquei presa.
- Pelo quê, Carolina?
- Pela árvore, a árvore cheia de raízes
que prendeu as minhas pernas e não me deixou voar.
- Que árvore?
- Aquela ali. – Carolina apontou para
onde a árvore. – A que estava ali semana passada.
- Carolina, não tinha árvore ali.
- Mas quem me prendeu?
- Carolina... Foi você mesmo quem se
prendeu.
Carolina corre para o jardim, olha para
o céu que hoje está cinza e pensa “Vou voar! Vou voar!”, não têm árvore, não
tem força que a puxa para baixo, não tem nada. Só Carolina. Só Carolina
querendo voar. Só Carolina querendo pisar na grama quente coberta por tapete
persa onde chuvisca e tem cheiro de doce. Só Carolina. Só Carolina tentando
levantar vôo e ir para o melhor lugar do mundo. Carolina tenta. Tenta de novo.
Carolina pensa. Pensa que se voar, pode cair e lá de cima deve doer a queda. Olha
pro chão, vê que já está com os pés fora dele, Carolina está voando... Mas ela
olha bem pro chão, vê as árvores, as árvores voltaram. Carolina decide. Quer as
árvores. Não quer o céu. Não quer tapete persa, chuvisco, cheiro de doce e nem
grama quente. Carolina quer as árvores. “Não vou, não vou mais”. Há um trovão.
Depois do trovão há chuva. Carolina para de voar. Carolina volta para o chão.
Carolina abraça a árvore. Carolina olha pro céu e não o vê. Passa dias sem vê-lo.
Sente falta do céu. Mas olha a árvore... Carolina gosta de ficar no chão, gosta
da árvore e da força que a prendeu. Carolina está morrendo de medo. Parece uma
peça solta de um jogo essa Carolina. Carolina adorava o céu. Carolina ama o chão.
Carolina não se ama. Não se ama direito, Carolina. Não ama direito. Carolina. Ê
Carolina.
- Marcella Leal


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