domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Carolina que sabia voar.


          Carolina olhou pro céu azul claro e sentiu uma vontade imensa de voar. Pensou. Pensou. Lembrou que não sabia voar. Pensou em como seria voar. Voar seria ser tomada por uma força sobre-humana que a levantaria e levaria ela para o lugar mais bonito do mundo. Onde era o lugar mais bonito do mundo? Pra onde Carolina queria voar? Fechou os olhos. Pensou. O lugar mais bonito do mundo tem chão gramado, solo quente e chuvisca de fininho.... Não! Não... O lugar mais bonito do mundo tem um tapete persa igual ao da casa da vizinha. Não! O lugar mais bonito do mundo tem cheiro de doce! Isso! Tem cheiro de doce, chuvisca, tem grama quente coberta com tapete persa. Pronto. Carolina queria voar.
       Na ânsia de pegar vôo, Carolina levantou os braços, inclinou a cabeça e pensou “Vou embora, vou voar!”, mas de repente, percebeu que as raízes das árvores que estavam logo ao seu lado prendiam os seus pés e não deixavam voar, “Mas eu quero, eu quero muito” e bateu os braços, e tirou as raízes e gritou, esperneou, mas mesmo sem nada prendendo os pés, Carolina se via puxada para baixo, impossibilitada de voar. Carolina olhou pro céu, o céu chorou para Carolina, o céu chorou em Carolina e Carolina não voou. Carolina passou a semana triste porque não tinha conseguido voar, aí então perguntaram:
       - Carolina, por que não voou?
       - Não deu.
       - Não deu, por quê?
       - Fiquei presa.
       - Presa?
       - Foi. Fiquei presa.
       - Pelo quê, Carolina?
       - Pela árvore, a árvore cheia de raízes que prendeu as minhas pernas e não me deixou voar.
        - Que árvore?
        - Aquela ali. – Carolina apontou para onde a árvore. – A que estava ali semana passada.
        - Carolina, não tinha árvore ali.
        - Mas quem me prendeu?
        - Carolina... Foi você mesmo quem se prendeu.
        Carolina corre para o jardim, olha para o céu que hoje está cinza e pensa “Vou voar! Vou voar!”, não têm árvore, não tem força que a puxa para baixo, não tem nada. Só Carolina. Só Carolina querendo voar. Só Carolina querendo pisar na grama quente coberta por tapete persa onde chuvisca e tem cheiro de doce. Só Carolina. Só Carolina tentando levantar vôo e ir para o melhor lugar do mundo. Carolina tenta. Tenta de novo. Carolina pensa. Pensa que se voar, pode cair e lá de cima deve doer a queda. Olha pro chão, vê que já está com os pés fora dele, Carolina está voando... Mas ela olha bem pro chão, vê as árvores, as árvores voltaram. Carolina decide. Quer as árvores. Não quer o céu. Não quer tapete persa, chuvisco, cheiro de doce e nem grama quente. Carolina quer as árvores. “Não vou, não vou mais”. Há um trovão. Depois do trovão há chuva. Carolina para de voar. Carolina volta para o chão. Carolina abraça a árvore. Carolina olha pro céu e não o vê. Passa dias sem vê-lo. Sente falta do céu. Mas olha a árvore... Carolina gosta de ficar no chão, gosta da árvore e da força que a prendeu. Carolina está morrendo de medo. Parece uma peça solta de um jogo essa Carolina. Carolina adorava o céu. Carolina ama o chão. Carolina não se ama. Não se ama direito, Carolina. Não ama direito. Carolina. Ê Carolina.

                                    - Marcella Leal

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